Em busca da equidade de gênero na ciência

Projeto Meninas no Museu inspira e insere estudantes em atividades de pesquisa e divulgação científica

Ao longo dos anos, apesar da imposição de papéis de gênero em uma sociedade conservadora, as mulheres foram protagonistas na construção do pensamento científico e importantes para o desenvolvimento e o avanço da ciência. Porém, hoje em dia ainda é preciso quebrar paradigmas para compreender os motivos da pouca participação das mulheres nas áreas de exatas. Com esse pensamento, foi criado o projeto Meninas no Museu de Astronomia e Ciências Afins, idealizado para incentivar as jovens a se interessarem pelas ciências, e ajudar a formar meninas em astronomia e outras áreas.

Mas para contar essa história precisamos voltar ao ano de 2015, quando a astrônoma Patrícia Spinelli e a bióloga Ana Paula Germano desenvolveram o Dia das Meninas, ação de divulgação científica que tinha o intuito de chegar mais próximo das jovens para desconstruir o preconceito social de que as mulheres ‘não são boas para a ciência. Era um dia inteiro com atividades de ação educativa com participação do público escolar. O sucesso fez com que as meninas quisessem mais do que apenas um dia dedicado à elas, o que resultou no projeto.

“Com certeza o Dia das Meninas de 2015 foi o início de tudo. Na época, organizei o evento junto com Ana Paula Germano, bolsista do MAST. Ana e eu sentimos que o evento foi um sucesso, e que uma ação continuada seria amplamente recebida pelas meninas interessadas. Tentamos um edital de financiamento, mas não fomos contempladas”, contou Patrícia

Patrícia, Ana e Sandra
Patrícia, Ana e Sandra

A astrônoma relatou que, ao final de 2015, a astrofísica Sandra Benitez Herrera se mobilizou pela causa e juntou-se ao projeto buscando outras formas de financiamento, apostando nas bolsas Jovens Talentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) para as meninas.

“No ano seguinte, quando conseguimos as bolsas, começamos o projeto Meninas no Museu, com a Sandra sempre à frente dos esforços, já que ela também se propôs a fazer a pesquisa de avaliação do projeto”, concluiu Patrícia. E a pesquisa da Dra. Sandra Benítez Herrera ajudou a contextualizar o preconceito sobre as capacidades intelectuais das mulheres, desconstruindo a imagem estereotipada do cientista.  Ela citou que a teoria de gênero na ciência possui a exclusão horizontal, que se origina pela diferença de expectativas e atitudes para com os meninos e as meninas por parte da família, dos professores e da sociedade em geral, e a exclusão vertical (ou teto de vidro), que faz com que as mulheres que começam uma carreira científica não consigam avançar com a mesma velocidade pela escala acadêmica, até posições de alto nível e tomadas de decisões, que o homem.

“Há o paradigma de que os meninos são bons em matemática e as meninas boas em serem ‘cuidadoras‘ ou que elas servem apenas para serem professoras. E quando há uma mulher na área científica, os ambientes são muito hostis, pois ainda existe o preconceito de que a mulher não é boa para ser cientista. Eu, por exemplo, senti muita descriminação por ser mulher quando fui fazer meu doutorado. A todo instante eu precisava explicar os motivos de uma mulher estar se especializando em astrofísica. Inúmeras vezes fui questionada, pois achavam que essa carreira não era para mim”, contou Sandra, que admitiu se deparar com esse tipo de comentário até os dias de hoje.

Ela afirmou que ao chegar no MAST, conheceu a ação de divulgação do Dia das Meninas, se identificou, e fez questão de entrar no grupo de trabalho para se aprofundar no tema, estudando artigos teóricos sobre gênero e ciência, além do papel e a situação da mulher nesta área. Com a criação do Meninas no Museu, foi possível realizar a formação continuada de alunas do Ensino Médio em astronomia e outras áreas, facilitando o acesso a modelos de referência, colocando as jovens em contato com mulheres pesquisadoras em várias áreas científicas e estimulando o interesse pelo tema. “O projeto ajuda a engajar as estudantes em diferentes disciplinas científicas, oferecendo capacitação específica na mediação em museus de ciência, e permitindo que elas possam atuar na área profissionalmente”, declarou.

As jovens atuam como mediadoras nas atrações e atividades de divulgação científica do MAST, e nos eventos temáticos no decorrer do ano, a exemplo da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2017, onde elas puderam exibir os experimentos e ações desenvolvidas ao longo do projeto. O grupo de meninas é formado por sete estudantes de Ensino Médio, com idades entre 15 e 18 anos de duas escolas públicas e uma particular. Uma das alunas, que iniciou o projeto ainda no 3° ano do Ensino Médio, hoje faz graduação em Astronomia na Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ). Para divulgar e compartilhar as experiências do projeto, as jovens criaram o blog Cientistas de Primeira Viagem – Elas explorando o mundo, onde contam suas histórias, mostram a elaboração das atividades preparadas para os eventos e também suas realizações.

O projeto Meninas no Museu incentiva às estudantes a se apropriarem dos conhecimentos científicos, e influencia no poder de decisão pessoal de cada participante, levando-as a se sentirem empoderadas para lidar com assuntos de ciência. “Temos que fomentar o interesse das meninas pelas ciências afirmando que sim, elas são capazes de fazer ciência, e que isso não é somente coisa de meninos. Também precisamos quebrar esse paradigma do cientista Einstein, do cientista mega gênio, pois já não se trabalha assim na ciência, que hoje funciona de forma colaborativa. Qualquer pessoa pode ser cientista, independente do gênero. Esse projeto ajuda a quebrar esse tipo de preconceito”, finalizou Sandra Benitez.

Comments

comments