A arte como necessidade de expressão dos loucos

Foto: Bruna Aguiar

Palestra destacou a disputa entre médicos e artistas pela atribuição de sentidos com o surgimento de obras plásticas criadas por pacientes portadores de estigmas.

As obras de arte produzidas por pessoas que vivenciam os misteriosos mergulhos no inconsciente, foram destaque na palestra “Narrativas silenciadas: sombras e esquecimentos nas coleções da loucura“, realizada em outubro, no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), por Eurípedes Júnior, doutor em Museologia e Patrimônio pelo PPG-PMUS da UNIRIO/MAST. Ele apresentou recorte da sua tese “Do asilo ao museu: ciência e arte nas coleções da loucura”, reconhecida com a outorga de Menção Honrosa do Prêmio Capes de Tese 2016, na área de Ciências Sociais Aplicadas.

“Minha pesquisa se dirigiu para o campo das obras e dos museus que se dedicam a colecionar, guardar e divulgar obras criadas por pacientes internados em hospitais psiquiátricos, rotulados como loucos, e outros como marginalizados a exemplo de ermitões, refratários sociais, desviantes. Pessoas que de alguma forma não estão inseridas no campo formal da arte e da cultura, mas que não deixam de produzir objetos, imagens e criações que nos deslumbram e que, por um determinado motivo, foram colecionados, guardados e preservados, formando hoje um grande patrimônio. Fiz diversas leituras, especialmente nos campos da ciência e da arte “, afirmou Eurípedes.

Foto: Bruna Aguiar/MAST

O museólogo falou sobre as coleções das loucuras, onde predominam obras feitas por pacientes de hospitais psiquiátricos, sustentando que elas são um patrimônio imagético da humanidade para o conjunto desses acervos e coleções. “Essas obras foram criadas sob um velamento à margem da história oficial das produções plásticas dos séculos XIX e XX. A invisibilidade dessa história é o reflexo da tentativa de negar ou esconder a existência da loucura”, afirmou Eurípedes. Ele contou que as pinturas, os desenhos e as artes feita pelos pacientes eram desvalorizadas, por eles serem considerados inferiores. Entretanto, a força e a beleza dessas imagens, a integridade de seu processo criativo, chamavam a atenção, não só por satisfazerem uma necessidade de expressão dos pacientes, mas também para preencher uma necessidade humana profunda de imagens desse tipo. “Por esses motivos é que elas foram colecionadas, estudadas e musealizadas. Isso lhes atribui um valor único”, declarou.

Eurípedes relatou que as pessoas sofreram progressivamente um silenciamento da loucura, até o advento dos hospícios, onde o isolamento total do louco  interrompeu qualquer interação com a sociedade. Entretanto, foi nesses lugares reservados exclusivamente para o internamento dos loucos, que na falta do diálogo e da palavra surgiram obras realizadas por pessoas anônimas que despertaram curiosidade e interesse, inicialmente de médicos e depois de artistas. O museólogo analisou as principais exposições e apropriações das coleções da loucura, utilizando a museologia como eixo transversal,e contando um pouco sobre a sua experiência no Museu de Imagens do Inconsciente (MII), criado pela Dra. Nise da Silveira, psiquiatra pioneira na utilização da arte como recurso terapêutico. “Foi preciso analisar a constituição e trajetória do MII, desde a fundamentação teórica que orientou a sua criação e organização do conhecimento praticada pela instituição, fruto do método de leitura das imagens desenvolvido pela Dra. Nise e seus colaboradores, um trabalho interdisciplinar e intercultural”.

A musealização das coleções da loucura tornou-se uma maneira de apreciar as obras dos loucos sem implicar em seu confinamento, criando uma nova ordem na relação sociedade x loucura e permitindo um diálogo que até então não existia. “O papel da museologia e do museu nesse processo de  contato entre a produção plástica do louco e da sociedade, torna-se fundamental no estudo da relação específica do homem com a realidade, que o leva a criar coleções de objetos que testemunham a evolução da natureza e da sociedade”, concluiu.

Confira, na íntegra, a palestra de Eurípedes Júnior:

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