Mistério, glamour imperial e uma aeronave “cobaia”

Trabalhos de conservação e restauração foram temas do Terças Tecnológicas

Para conhecer alguns trabalhos de conservação preventiva, – que são fundamentais para a preservação de documentos, acervos e peças com grande valor histórico -, a última edição do ciclo de palestras Terças Tecnológicas, realizada no dia 27 de junho, trouxe o tema “Biodeterioração, Arqueometria e Artefatos Históricos”. Foram apresentados estudos de caso, alguns até curiosos, referentes à ataque de fungos em biblioteca, restauração do trono do imperador e uma aeronave que serviu como “cobaia” para a conservação da coleção de aviões. Os trabalhos são fruto de um acordo de cooperação técnica e científica firmado entre o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e o Museu Imperial.

O evento abordou as linhas de trabalho do engenheiro químico, doutor em microbiologia,  professor da UERJ e vice-diretor do Mast, Antonio Carlos Costa, da doutora em museologia Eliane Marchesini Zanatta, responsável pelo Laboratório de Conservação e Restauração do Museu Imperial, e da doutora em biologia Márcia Lutterbach, pesquisadora do Laboratório de Biocorrosão do INT. Esse grupo trabalha em conjunto há 8 anos, e apresenta um estudo rico em detalhes, já envolve várias especialidades, como química, museologia, microbiologia.

Foto: Amanda Oliveira/ INT

As palestras enfatizaram como os trabalhos de microbiologia e bioquímica são essenciais para se detectar a presença de fungos e bactérias, e entender as causas de sua proliferação nos acervos.

Mistério na biblioteca e tintas que atacam o papel

O professor Antonio Carlos iniciou o ciclo de palestra afirmando que, ao que se refere ao patrimônio histórico, é preciso sempre se pensar no aspecto da conservação preventiva como atividade que deve ser feita utilizando técnicas modernas, de natureza não destrutiva, ao se analisar os objetos. Ele apresentou como estudo de caso, um curioso acidente na antiga biblioteca de livros especiais no Mast. Após um final de semana, misteriosamente alguns livros do acervo estavam muito danificados e apresentavam capas retorcidas.

“Fizemos uma investigação mais profunda no campo da biodeterioração. Todos os arquivos que têm como base a celulose, são degradáveis por pelo menos 180 gêneros de microorganismos. A biblioteca ficava numa área de aproximadamente 100 m², sem ar condicionado, apenas com ventilação natural, cuja temperatura média era em torno de 22°C a 28°C e com muita umidade. Em apenas um final de semana, notamos que uma grande quantidade de livros apresentava uma proliferação fúngica anormal.”, contou.

Mas como esses fungos atacaram apenas alguns livros em apenas uma semana? Antonio Carlos relatou que, somente quando olharam para cima, desvendaram o mistério. Houve uma reforma no teto da biblioteca e o entorno das saídas de ar foi pintado com cal. Após uma forte chuva, a água escorreu por essas saídas, se misturou à cal e atingiu algumas estantes. “Os livros com capa de couro, que é proteína, imediatamente sofreram a reação química, gerando degradação e abrindo caminho para a entrada dos fungos”, afirmou.

Foto: Amanda Oliveira/INT

Ele descreveu todo o processo de análise e tratamento químico utilizado para investigar o caso. Após identificar cada tipo de fungo, foi preparada uma solução de 200 ml de Preventol, seguindo as orientações do fabricante. Entretanto, alguns fungos permaneceram e, a solução foi aumentar a dosagem química, tornando o tratamento mais possante, o que resultou na resolução do problema. “Isso comprova que não existe uma solução universal para se eliminar fungos, seja de um arquivo ou de uma biblioteca. Se assim fosse, as proliferações fúngicas não estariam acontecendo por aí em todos os ambientes. Cada caso tem que ser avaliado individualmente, em função da composição química e da flora microbiana da atmosfera do ambiente”, encerrou.

Por fim, Antonio Carlos apresentou também alguns resultados dos estudos realizados sobre as tintas ferrogálicas. Muitos documentos históricos guardados em museus e bibliotecas se decompõem aceleradamente pelo uso comum dessas tintas que, por conterem ferro, oxidam-se e corroem o papel. As análises apresentadas, feitas em parceria com o Laboratório de Biocorrosão do INT, mostraram toda caracterização química dos papéis e da tinta, identificando os microrganismos típicos dos ambientes de acervos e sua ação na biodeterioração da celulose.

O resgate da história e do glamour imperial

A palestra de Eliane Zanatta descreveu todo o processo de conservação e restauração do trono do Imperador Dom Pedro II. A peça, que faz parte da exposição permanente do Museu Imperial de Petrópolis (RJ), recebeu reparos por apresentar problemas estruturais. Eliane detalhou a composição do trono e destacou que uma alteração cromática muito grande na parte têxtil lhe chamou a atenção.

“O trono é feito em talha dourada, estofos em veludo verde e um medalhão oval com a sigla de D. Pedro II, bordado com fios de ouro. Inicialmente reparei que esse bordado estava muito oxidado, e que havia uma liga com um material prateado. Na investigação histórica, percebi que nunca um imperador utilizaria qualquer bordado de prata, por toda questão simbólica do ouro e por questão de glamour. Descobri que já havia ocorrido uma restauração antes de o trono vir para o Museu Imperial, na década de 40.”

Foto: Amanda Oliveira/ INT

A alteração cromática na parte têxtil foi o ponto de partida para Eliane começar sua investigação material. Ela identificou que na área de assento havia a inscrição do primeiro restaurador que trabalhou no Museu Histórico Nacional. Já no local onde existiam as folhas de ouro, havia uma pintura mais atual, camadas de verniz, cera e poeira acumulada ao longo dos anos, o que distorcia toda a legibilidade que o trono tinha.

“Buscamos uma metodologia para resgatar a questão histórica e visual. Tínhamos que devolver a estética, removendo a área de bordado, realizando um processo de pigmentação, usando um tecido de veludo similar, na cor dos Bragança.” detalhou. Foi feita uma pesquisa microbiológica, identificando e isolando bactérias e fungos nas partes de madeira, no tecido e também no ar do Museu Imperial. Tudo para descobrir o problema da infestação de fungos. Foi colhida amostras antes e depois do tratamento, para se identificar e resolver o problema. O relato de todo o procedimento deste trabalho estará na 3ª edição do Caderno Técnico do Museu Imperial.

Aeronave como “cobaia”

Encerrando o ciclo de palestras, Márcia Lutterbach apresentou o diagnóstico da proliferação de fungos causadores de deterioração aeronave Muniz M-7, primeiro modelo fabricado em série no Brasil. Esse estudo é parte da dissertação de mestrado em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia de Ana Carolina Nogueira de Oliveira, do qual Márcia foi uma das orientadoras. A aeronave serviu como peça piloto para a identificação da presença de fungos e bactérias e as possíveis causas da proliferação destes microrganismos no acervo do Museu Aeroespacial.

“A Muniz M-7 foi selecionada para estudo devido as suas características estruturais, pois possui em sua composição madeira, couro, metal e borracha. Retiramos amostras para se verificar o conjunto dos microorganismos contidos nessas partes da aeronave. Além disso, realizamos análise do ambiente de guarda, um galpão sem controle de umidade, onde a aeronave ficava exposta”, detalhou.

Foto: Amanda Oliveira/INT

Foram observadas diversas proliferações de fungos nas áreas de coletas e também do ambiente. Uma outra aeronave com as características semelhantes às do Muniz M-7 foi estudada para fins de comparação, o que gerou ocorrência fúngica consideradamente menor em comparação com o ar ambiente na área de guarda. “A Muniz M-7 ficava logo à entrada do hangar de exposição, onde havia uma grande contaminação pela circulação de ar. A solução foi mudar a aeronave de lugar, alterando sua posição dentro do hangar”, concluiu.

O estudo resultou no desenvolvimento de uma instrução técnica de procedimento para acompanhamento, avaliação e correção de processos de biodeterioração microbiana em áreas de guarda sem controle ambiental, visando servir de base para a conservação da coleção de aviões.

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