Os personagens envolvidos na construção do Quarto de Círculo

Palestra destacou como o quadrante astronômico conectou personagens envolvidos com a fabricação, comércio e uso de instrumentos durante a segunda metade do século XVIII

Ao longo século XVIII, para demarcar os limites de suas terras, a Coroa Portuguesa enviou à América astrônomos, engenheiros e matemáticos. Com eles, desembarcou no Brasil um conjunto de instrumentos científicos comprados de Londres. Entre os artefatos, havia um quadrante astronômico fabricado por Jeremiah Sisson, importante construtor de instrumentos matemáticos da época. A partir de pesquisas realizadas em Londres, há a hipótese de que João Jacinto de Magalhães, filósofo natural português e responsável pela aquisição dos instrumentos que seguiriam para América portuguesa, tenha desenhado o quarto de círculo fabricado por Sisson em 1779.

Foi assim que Heloisa Meireles Gesteira, historiadora e coordenadora do setor de História da Ciência e Tecnologia do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), iniciou sua palestra sobre o Quarto de Círculo, objeto de suas pesquisas realizadas durante seu estágio de Pós Doutorado, realizado no Museu de História da  Ciência da Universidade de Oxford. Heloisa focou sua narrativa tratando o quarto de círculo como um intermediário entre os personagens envolvidos com a fabricação, comércio e uso de instrumentos em Londres.

Foto: Bruna Aguiar/MAST

“São várias as possibilidades de abordagem sobre o quadrante astronômico. Uma delas é a respeito do comércio no século XVIII, o tema das viagens dos instrumentos. Escolhi o Quarto de Círculo como fonte do meu trabalho, pois o desafio é tornar o artefato protagonista das minhas reflexões”, afirmou Heloisa.

Ter uma boa coleção de instrumentos científicos era fundamental para se conseguir coletar dados astronômicos. O quadrante astronômico portátil, na época, era frequentemente utilizado em viagens. A historiadora afirmou que há indícios de que Magalhães desenhou e descreveu em detalhes o Quarto de Círculo fabricado por Sisson, em 1779. Ela contou que o filósofo natural foi contratado pelo diplomata português Don Luis Pinto de Sousa Coutinho para  organizar o conjunto de instrumentos que seriam enviados para o Brasil e que os artefatos deveriam ser os melhores que existissem em Londres.

“Quando Magalhães enviou carta à Don Luis, nos chama a atenção o fato de que o único instrumento detalhadamente descrito, peça por peça, cada encaixe, foi o quadrante astronômico. Havia uma gravura que acompanhava a descrição do instrumento, definindo suas dimensões, as caixas que o acomodaria e os demais cuidados no transporte, incluindo a preocupação com o peso da carga para que fosse seguro o deslocamentos durante as viagens, sobretudo em um país quente”, contou Heloísa. “A descrição apresentava o estilo dos livros sobre fabricação e uso dos instrumentos, uma espécie de catálogo. Esse é um forte indício de que ele desenhou o quadrante que encomendou a Sisson”, concluiu.

Gravura do Quarto de Círculo descrito por João Jacinto de Magalhães.

Ao colocar o quadrante astronômico como protagonista de seu estudo, Heloisa mostrou a importância de se conhecer, não apenas o instrumento, mas sim entender a história de outros personagens envolvidos com a fabricação e uso dos artefatos.   O que despertou o interesse de Heloisa Gesteira por este instrumento é o fato de que há um Quarto de Círculo assinado por Sisson na coleção de instrumentos científicos herdados sob guarda do Museu de Astronomia e Ciências Afins.

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