Sobre os nossos clichês

Desde os primórdios, o mundo é para os fortes. E, apesar da sabedoria popular dizer que a união faz a força e que o bem sempre triunfa, a tarefa de agradar gregos e troianos não é nada fácil.  Depois dessa enxurrada de frases feitas, já podemos afirmar que nunca antes na história da humanidade o Observando o MAST soou tão familiar. Afinal, quem nunca ouviu ou falou algum clichê na vida?

De um modo geral, o termo “clichê” nos remete à ideias/expressões cristalizadas dentro de um contexto. Apesar da pouca abertura para a originalidade,  a aplicação de clichês  pode ser entendido como um reflexo natural e/ou mecânico da comunicação.  Até porque como bem lembrou o poeta: “Mas quais são as palavras que nunca são ditas?”.  Para além do campo das ideias, ela também está associada a comportamentos comuns do cotidiano. Quem nunca fez um comentário sobre o tempo no elevador que atire a primeira pedra.

Derivado do francês, o  cliché é concebido na lógica da reprodução de imagens.  Em termos etimológicos, essa palavra também pode ser descrita como negativo fotográfico. Isso porque a sua origem está intrinsecamente atrelada à história da fotografia, bem como ao processo tipográfico de cópia de imagem do século XIX.

Foto: Câmara escura, aparato do MAST./ Crédito: Renata Bohrer

Desde a criação da câmara escura, estudiosos buscam uma fórmula de reprodução de imagem diferente dos métodos convencionais.  Antigamente, a reprodução de imagem só era possível pelas mãos do homem.  As pesquisas seguiam com o objetivo de tornar viável a ideia de fixar as imagens “desenhadas” através da luz em uma superfície sem a interferência do artista. Substâncias capazes de escurecer em contato com a luz já eram conhecidas desde o século XIII. A grande questão era como fixar somente a imagem desejada exposta à luz no tempo correto.

Um dos primeiros experimentos nesse sentido que se tem conhecimento é do químico Thomas Wedgwood. A imagem teria sido criada em 1790, entretanto, relatos históricos apontam que a reprodução não foi bem sucedida.  Alguns anos após, em 1826, o francês Joseph Niépce desenvolveu uma técnica para copiar desenhos para a litografia usando a luz solar. Ele conseguiu fixar uma imagem projetada por uma câmera escura (da janela de seu estúdio) numa superfície, usando betume da Judeia (o processo foi batizado de heliografia – “desenho com o Sol”), mas eram necessárias 8 horas de exposição à luz, tornando o processo impraticável.

Após a sua morte, em 1833, o físico francês Louis Gaguerre dá continuidade aos estudos na área.   A sua experiência envolvia placas sensibilizadas pelo composto químico chamado iodeto de prata. Durante as suas pesquisas, um acidente em seu laboratório contribuiu para uma descoberta. Ao quebrar um termômetro de mercúrio sobre uma placa, ele conseguiu revela uma imagem até então imperceptível a olho nu. Mais tarde, Gaguerre descobriu como gravar a imagem livrando-se dos sais de prata não expostos, usando uma solução salina. É o início da daguerreotipia.

Apesar da popularização do daguerreótipo, em 1851. A técnica do clichê se desenvolve e se detaca no processo de reprodução tipográfica.  O método consistia em mergulhar chapas de vidro em solução de colódio e sais de prata. Com o negativo (fotografia) era possível fazer várias cópias, esse processo finalmente possibilitou a reprodutividade.

Observando o MAST, você encontra diversos clichês com imagens de instrumentos científicos astronômicos. Ao acessar a base de dados do acervo museológico, verificamos que a instituição possui 13  clichês. Alguns deles podem ser vistos na exposição Olhar o Céu, medir a Terra. Os clichês apresentam uma base em madeira e uma superfície em metal.

E aí, curtiu?

 

 

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