MAST abre ao público dois mil livros do acervo da ABC

Alfredo Tolmasquim, ex-diretor do MAST, Luiz Davidovich presidente do ABC e Heloísa Bertol atual diretora do Museu.

Fundada em maio de 1916, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) é a principal associação nacional de cientistas. Em mais de um século de existência, figuraram entre seus membros personalidades ilustres, como Santos Dumont, Oswaldo Cruz, Johanna Döbereiner e Adolpho Lutz. Até hoje um centro de debates e estudos sobre o conhecimento científico e suas aplicações práticas, a ABC, ao longo dos anos, reuniu um significativo acervo bibliográfico, composto por mais de 14 mil volumes.

Responsável desde 2015 pela guarda da coleção, a Biblioteca do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) abriu ao público, no dia 3 de maio, os primeiros dois mil livros já higienizados e catalogados. Entre os destaques estão obras com anotações a mão feitas por importantes cientistas, como o médico Carlos Chagas Filho e o físico Joaquim da Costa Ribeiro.

“Além da importância histórica, o acervo reflete a circulação de conhecimento entre os cientistas brasileiros e estrangeiros. O conteúdo impressiona pela raridade e, a partir de agora, todos os que vierem ao Museu poderão revisitá-lo”, afirma Heloísa Maria Bertol Domingues, Diretora do MAST. A coleção também pode ser consultada na internet, na base de dados da biblioteca.

Durante o trabalho de processamento técnico realizado pelo Museu, foi encontrado um curioso exemplar do livro “Homens e Coisas da Ciência”, do médico Carlos Chagas Filho. Além de importância científica, os organizadores descobriram que a publicação, lançada em 1956, possuía valor simbólico. Há nela uma dedicatória escrita de próprio punho pelo autor, o que a torna um exemplar único.

“Há vários livros com anotações marginais feitas pelos próprios acadêmicos. É um material singular. Por isso, a Biblioteca do Museu inicia neste mês um projeto para traçar a história dessas publicações. Haverá uma profissional trabalhando exclusivamente nessa tarefa”, explica Lúcia Lino, Bibliotecária do MAST.

Outro tesouro estava escondido no livro Principles of Nuclear Engineering, de Samuel Glasstone, 1955. Dentro da publicação havia cartas que foram trocadas entre o físico Joaquim da Costa Ribeiro, dono do exemplar, e o cientista americano Donald Kallman.

Até chegar ao MAST, o acervo percorreu um longo caminho. Em 1928, devido a questões relacionadas à reurbanização do centro do Rio de Janeiro, a Academia teve que deixar o prédio que ocupava na Avenida das Nações. Sem sede própria, os membros passaram a reunir-se em diferentes locais, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Ministério do Trabalho.

Os livros ficaram então sob os cuidados do Acadêmico Matias de Oliveira Roxo, que os acondicionou em um pequeno apartamento na rua Marques de Abrantes, no Flamengo. Algum tempo depois, foram transferidos para a Fundação Getúlio Vargas e, mais tarde, para a Divisão de Geologia e Mineralogia do Departamento Nacional da Produção Mineral, na Urca.

Em 1960, enfim a Academia ganha sede nova, na rua Anfilófio de Carvalho, no Centro do Rio, para onde é levado o acervo. Já na década de 80, na gestão de Maurício Matos Peixoto, a coleção foi para o quinto andar de um edifício da Rua Araújo Porto Alegre, também no centro.
Desde então, várias ações para higienização e restauração do acervo foram iniciadas, mas devido a restrições financeiras, abandonadas.

Heloísa Bertol, atual Diretora do MAST, entrega menção honrosa à Alfredo Tolmasquim, ex-diretor que iniciou as negociações com a ABC em 2007

Até que em setembro de 2005, o MAST, convidado pela ABC, envia bibliotecárias para coletar informações e elaborar estratégias de organização. Dois anos depois, em 2007. por iniciativa de Alfredo Tolmasquim, então diretor do MAST, foi celebrado com Jacob Palis, na época presidente da ABC, o primeiro acordo formal de parceria entre as instituições, que previa a avaliação, seleção, identificação, embalagem e transferência do acervo para o Museu.

“A Biblioteca da ABC foi fundamental para a evolução da Ciência no Brasil. Quem desejava se aprofundar na área precisava consultá-la. Com a criação das faculdades, novas bibliotecas surgiram, mas a coleção continua sendo fundamental para os interessados em saber mais sobre a história da ciência no País e sobre a própria ABC”, afirma Tolmasquim.

Na prática, o trabalho de organização começou em março de 2008. Foi formada uma comissão de pesquisadores das duas instituições para avaliar o que realmente seria enviado ao Museu, já que a proposta inicial previa descarte de títulos e doações a outras bibliotecas. Em 2009, o material selecionado nessa primeira etapa chega ao MAST em aproximadamente 400 caixas. Três anos se passaram e, em 2012, ficou acertado que não só o material selecionado, mas todo o acervo seria doado ao Museu.

“É um enorme feito para a memória da ciência nacional”, afirma Luiz Davidovich, atual presidente da ABC. “As publicações estavam encerradas na Academia. Era muito difícil consultá-las. Agora todo esse conhecimento está aberto ao público no Museu”, comemora.

Após 10 anos de negociações e trabalho, em 2015 o MAST e a ABC oficializam a parceria e assinam um Termo de Comodato que cede o acervo ao Museu por 25 anos, renovável por igual período. No ano passado, todas as obras foram higienizadas e colocadas nas estantes, trabalho realizado em parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.

“Colocar os dois mil primeiros volumes à disposição do público é um orgulho para toda a equipe de bibliotecários do Museu. É um sonho que virou realidade”, conclui Eloísa Almeida, chefe da Biblioteca do MAST. A expectativa é que em breve todo o acervo esteja disponível para consulta.

Veja as fotos do evento.

Assista a cerimônia completa aqui:

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