Astrolábio e sua origem

Foto: Astrolábio náutico (réplica)/ Crédito: Bernardo Oliveira.

No mês em que acontece a abertura do calendário das atividades do Biênio da Matemática no Brasil, a coluna Observando o MAST destaca um instrumento que tem em sua concepção o envolvimento de vários personagens ligados à essa ciência na Antiguidade.  Sabe-se que a origem do astrolábio está intrinsecamente atrelada a vários conceitos matemáticos oriundos da Grécia Antiga. Nesse processo, devemos ressaltar a participação do povo árabe que, favorecidos pelo conhecimento grego, aprimoraram os seus estudos e técnicas para o desenvolvimento de um objeto capaz de determinar a posição das estrelas e calcular as horas do dia.

No texto O astrolábio e os árabes, do site Festival Sul-Americano de Cultura Árabe (SACA)|2016, o instrumento foi descrito como um objeto de ampla função para o povo islâmico. Algumas, inclusive, que não dizem respeito à ciência.

“ (…) com o astrolábio, era possível melhorar a navegação, calcular com maior exatidão a orientação em relação a Meca e os horários de oração do Islã. Com os árabes, os persas e sob o império Mughal da Índia, o astrolábio também se tornou uma peça de arte muito bem ornamentada.”

No vídeo animado publicado no site do Museo Galileo –  Uso astronomico dell’astrolabio piano – é possível verificar como um modelo de astrolábio teoricamente concebido em Alexandria foi disseminado com sucesso no mundo islâmico medieval ainda no século II a.C. Com o passar do tempo, o mundo árabe expande o seu território. Nesse período, eles absorveram as culturas de outros povos e potencializaram os estudos científicos nas regiões por onde passaram. Os árabes contribuíram para diversas áreas da ciência.  Manuscritos foram encontrados com observações no campo da astronomia, exemplo, um tratado árabe sobre o astrolábio.

Ilustração/Reprodução de Internet.

A expansão islâmica no Mediterrâneo permitiu com que o objeto fosse introduzido na Europa no século X. A partir daí, foram produzidos astrolábios em diferentes partes do Velho Mundo, como a Andaluzia, na Espanha. Apesar a notável contribuição dos árabes na difusão do instrumento, ainda não existe um consenso entre os historiadores sobre a autoria do mesmo. Muito embora tenha sido verificado, no decorrer desta pesquisa,alguns sites atribuindo aos gregos à invenção do astrolábio, em especial, ao astrônomo e matemático Hiparco.  Controvérsias à parte, o fato é que o instrumento foi se desenvolvendo na Europa ao longo dos séculos.

Na obra Navegação astronômica e derrota, é possível entender a dinâmica de observação através desse instrumento.

“Três homens eram necessários para fazer uma observação com o astrolábio (um segurava o instrumento pelo anel existente no seu tope, outro alinhava o dispositivo de visada com o astro-alvo e o terceiro fazia a leitura da sua distância zenital). Além disso, o menor balanço ou caturro do navio causava grandes erros de observação. Por esta razão, os navegantes foram forçados a abandonar o prumo de chumbo e tornar o horizonte sua referência para as medidas dos ângulos verticais”.(Migues.A.,p.550)

Ainda de acordo com a publicação, todo esse trabalho não garantia a precisão dos cálculos em alto mar:

“Assim, as técnicas e os instrumentos disponíveis para navegação no final da Idade Média não eram adequados para as grandes aventuras do homem nos oceanos incógnitos, que passaram à História com o nome de Era dos Descobrimentos”. (Migues. A.,p.550)

Em meados do século XVII, a fabricação de astrolábios se dava por toda a Europa. Segundo a dissertação de mestrado – ASTROLÁBIO: Calcular a Latitude com o Sol e a tabela de declinação ou com a Estrela Polar -, de Emilio de Oliveira Junior, a produção do instrumento era feita de forma artesanal.

“(…) Em Augsburgo e Nuremberga, na Alemanha, no século XV foi centralizada a fabricação de astrolábios, mas não se pode negar que houve alguma produção na França. Já no século XVI, os melhores instrumentos eram de Louram, na Bélgica. Por volta da metade do século XVII os astrolábios já eram feitos em toda Europa. (…) Existiam oficinas com vários funcionários, onde o estilo e o acabamento eram definidos pelo mestre e quando o mesmo se aposentava ou morria a oficina fechava. Um workshop especificamente importante foi criado por Georg Hartmann em Nuremberg em 1525.” – (Junior. E., 2016,p.12)

Existem vários tipos de astrolábios feitos por diferentes fabricantes pelo mundo. Entre os modelos: astrolábio de Danjon, astrolábio esférico, astrolábio quadrante, astrolábio pessoal, astrolábio planisférico. De todos os modelos, o astrolábio náutico é o que se apresenta com maior expressividade nas atividades marítimas.  O astrolábio náutico foi muito utilizado pelos pilotos portugueses no século XV. De acordo com o historiador português João de Barros,o astrolábio foi usado por Vasco da Gama em sua primeira viagem de Lisboa para Melinde.   “… Santa Helena… onde saiu em terra por fazer aguada e assi tomar a altura do sol. Porque, como do uso do astrolábio pera aquele mister da navegação, havia pouco tempo que os mareantes deste reino se aproveitavam…”.

Observando o MAST, você encontra no acervo dois modelos de astrolábios. São eles:o náutico (réplica) que, atualmente, encontra-se na exposição permanente Olhar o Céu, Medir a Terra e o astrolábio de prisma, hoje,situado em uma das salas da Reserva Técnica Visitável do MAST. Os objetos fazem parte do acervo museológico da instituição.

O astrolábio náutico seguiu como peça obrigatória nas embarcações portuguesas até o século XVII. Em alto mar, os pilotos usavam o instrumento, que é uma versão simplificada do modelo planisférico, para medir a altura dos astros acima do horizonte e determinar a sua localização. “A latitude é obtida tomando-se a altura do Sol ao meio-dia do local de observação. Compara-se o valor observado ao da altura do Sol neste horário e na mesma data, de um lugar de latitude conhecida, registrado em uma tabela”.  – Catálogo“Olhar o Céu, Medir a Terra”.

Criado em 1905, pelos astrônomos franceses Auguste Claude (1858-1938) e engenheiro L. Driencourt (1861-1940), o astrolábio de prisma é capaz de medir simultaneamente a latitude e a hora, pela observação do instante em que uma estrela atinge a mesma altura.

Foto: Astrolábio de prisma/ Crédito: Renata Bohrer/MAST.

De acordo com Ronaldo Mourão, na obra Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica, este objeto permite a observação “simultânea de duas imagens de uma mesma estrela, uma das quais se forma pela reflexão sobre um banho de mercúrio; o instante procurado é aquele no qual as duas imagens se confundem”. (Mourão, 1997, p.66)

 

Diferente dos modelos mais tradicionais, este astrolábio usa princípios de ótica para  calcular a posição dos astros. O instrumento é composto por uma luneta, um prisma e um horizonte artificial (espelho de mercúrio). Do fabricante A. Jobim, o objeto pode ser visto no interior de um armário localizado na Sala (rosa) da Reserva Técnica Visitável do MAST.

Aos poucos o instrumento foi perdendo espaço para outros mais precisos, como o sextante. Consideradas peças ornamentais desde os primeiros registros de sua origem, o astrolábio funciona muito bem para atividades de popularização da ciência. Clique aqui e veja uma sugestão de oficina para construção de um astrolábio com materiais de baixo custo.

Referências Bibliográficas:

Miguens, Altineu Pires. Navegação Astronômica: definição, importância e resenha histórica. In______ Navegação astronômica e derrotas.  cap.16. p.550-551. V. II

MUSEU DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS AFINS. Inventário da Coleção de Instrumentos Científicos do Museu de Astronomia e Ciências Afins. MAST. Rio de Janeiro. 2000.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica, Editora Nova Fronteira, 1ª edição, 1997

Catálogo da exposição permante “Olhar o Céu, Medir a Terra”, do Museu de Astronomia e Ciências Afins.

Junior. Emidio de Oliveira Saraiva. ASTROLÁBIO: Calcular a Latitude com o Sol e a tabela de declinação ou com a Estrela Polar. 2016 Dissertação (Mestrado). Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Impa. Rio de Janeiro.

Sites:
http://www.museogalileo.it/en/index.html
www.mhs.ox.ac.uk
https://festivaldaculturaarabe.wordpress.com
http://cvc.instituto-camoes.pt
http://www.iag.usp.br
http://ftp.demec.ufpr.br/CFD/bibliografia
http://www.museus.ulisboa.pt
http://www.consciencia.org

 

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