Marielle, presente – Reflexão em forma de elegia

Pesquisadora do MAST, Priscila Faulhaber, concatena a mobilização na cidade pela justiça social, com a permanente beleza das flores que perdura em seu desabrochar, certamente em sintonia com os movimentos da vida (e da morte). Cabe duvidar se as plantas também sentem?

Eu estava pensativa sobre a violência do dia a dia na cidade, quando vi que o Museu da República promoveu de 16 a 18 de março mais uma edição da Feira de Orquídeas. Participo como atividade extracurricular na oficina literária Ivan Proença, que ocorre toda quarta-feira à noite e dedico-me nas horas vagas a treinar a escrita em poemas ou textos em prosa.  Lembrando Mário de Andrade, que afirmou que “há uma gota de sangue em cada poema”, naquele dia a analogia de Mário Chagas que “há uma gota de sangue em cada museu” pareceu bastante realista.

Após a injustificada morte da vereadora Marielle Franco (aliás, que não conheci pessoalmente), veio-me à cabeça a metáfora da planta que cai mas, em outro momento,  novos botões irão brotar. Escrevi antes de visitar a exposição quando fui à área, textualmente as orquídeas estavam expressando aquilo que eu tinha sentido quando escrevi a elegia, concatenando a mobilização na cidade pela justiça social com a permanente beleza dessas flores que perdura em seu desabrochar, certamente em sintonia com os movimentos da vida (e da morte). Será imaginação ou as plantas sentem tal como parece? Mostrei a colegas da Coordenação de História da Ciência (COCHT) que me incentivaram a divulgar.

No MAST,  estudamos aspectos do processo civilizador. Como ninguém vive numa ilha isolada, quem escreve de uma forma ou de outra tem um compromisso social, no caso, alguma relação com a esfera pública. Deste modo, trata-se de alguma maneira se ocupar com questões de civilidade que estão presentes desde a nossa tardia República.  Sérgio Buarque de Holanda há muito já arrancou a máscara do chamado “homem cordial”. Infelizmente, a violência não está  apenas em episódios do sertão, das fronteiras longínquas.

Há crimes que chocam a todos e que fazem lembrar, principalmente, a vulnerabilidade das pessoas que vivem em favela e precisam viajar todos os dias para trabalhar em serviços domésticos ou como mão de obra barata. No dia a dia pessoas também de uma forma ou de outra são vítimas de ataques violentos, da misoginia ou do racismo que aparecem nas mínimas atitudes daqueles  que nos cercam.  Todos nós estamos sentindo isto, com uma simples fechada de carro, ou uma freada de ônibus, mas alguns correm mais riscos que outros.

Como dizia George Orwell na sua obra Animal Farm “todos são iguais, mas alguns são mãis iguais que os outros”. A imagem da tocaia em uma rua escura expressa muito mais que isto, uma vez que precisamos ter alguma garantia de que haja punição para os culpados. Cabe aqueles que têm acesso aos poderes públicos agir para que a cidadania seja mais do que uma palavra, que tenhamos a  garantia da materialidade dos direitos dos cidadãos e da justiça como prática social. Cabe identificar os criminosos, precisa haver uma prestação de contas, os crimes envolvem toda uma cadeia de comprometimentos que devem ser esclarecidos.

Priscila Faulhaber

Arte: Mariane Martins – Bolsista PCI/MAST

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O Museu de Astronomia e Ciências Afins, junto com as demais Unidades de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), repudia o assassinato da vereadora Marielle Franco.

As Unidades de Pesquisa (UPs) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) manifestam a mais profunda indignação pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL-RJ).

Exigimos que todas as esferas do Estado sejam ágeis, criteriosas e transparentes no que diz respeito às investigações. É preciso punir com vigor ‒ e exemplarmente ‒ não só os executantes, mas ‒ e principalmente ‒ os mandantes desse crime de lesa-pátria, ato de extrema desumanidade que ocorre pouco depois do Dia Internacional da Mulher.

Há a possibilidade de que esse crime ‒ que põe em risco tanto a democracia quanto o estado de direito ‒ seja uma manifestação de grupos marginais e retrógrados instalados no seio da sociedade brasileira e cujo objetivo principal parece ser a afirmação ou de um narcoestado, ou de um estado paramilitar em nosso país.

Isso é inadmissível.
Temos a certeza de que as causas e os ideais que a vereadora defendia ‒ em prol dos mais pobres e desamparados ‒ fomentarão uma sociedade mais justa e menos desigual para as futuras gerações de brasileiros.

Servidores, funcionários e alunos das Unidades de Pesquisa do MCTIC manifestam o mais profundo pesar aos familiares e amigos de Marielle, bem como aos de seu motorista, Anderson Pedro Gomes.
#Mariellepresente

Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Observatório Nacional
Rede Nacional de Ensino e Pesquisa
Instituto Nacional de Tecnologia
Centro de Tecnologia Mineral
Instituto de Matemática Pura e Aplicada
Museu de Astronomia e Ciências Afins
Laboratório Nacional de Computação Científica

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