O céu indígena, um olhar para as estrelas

O Brasil é um caldeirão cultural intenso e seu território abriga olhares com distintas maneiras de ver o céu. Os povos indígenas brasileiros integram complexos sistemas de saberes, práticas e teorias a respeito da relação céu e terra. Em outros termos, a astronomia indígena organiza o tempo, agricultura, pesca, atividades econômicas, cultos religiosos, rituais e outras práticas.

Uma linha de pesquisa que tem sido desenvolvida no Brasil é o estudo da literatura histórica e a comparação com informações levantadas em trabalhos de campo atuais sobre astronomia indígena.  A cultura desses povos é essencialmente oral, e ao longo do tempo, viajantes, pesquisadores, naturalistas e padres registraram percepções sobre como o céu influencia na vida dessas comunidades. A Antropóloga e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Priscila Faulhaber, se dedica em estudar essa temática e lançou recentemente um dossiê na revista Anthropológicas, que organizou com Alejandro López (Universidade de Buenos Ayres) e Renato Athias (Universidade de Pernambuco):

“A astronomia é considerada a mãe de todas as ciências, mas nem todo conhecimento astronômico é acadêmico. Hoje temos os clubes de astronomia, os indígenas, os pescadores, os povos ciganos… A astronomia na cultura não é uma ciência exata, assim como a linguística, antropologia, arqueologia e história. A astronomia cultural é  um campo interdisciplinar, no qual atuam profissionais de várias áreas com a preocupação de assimilar e reconhecer o conhecimento de diferentes grupos como válido”, disse Priscila.

Calendário Indígena – Geografia Indígena – Parque Indígena do Xingu. São Paulo: Instituto Sócio Ambiental, MEC 1996 pg. 55

Na literatura histórica produzida no período colonial, na qual se encontram descrições de populações nativas no Brasil, se destaca a ausência quase total de referências ao conhecimento que esses povos detinham sobre o céu. Segundo a pesquisadora, as poucas informações disponíveis sobre a cosmologia e as relações céu-terra são, em sua maioria, fragmentadas e em geral, compostas por comentários nem sempre positivos.

Diferentes grupos humanos produzem conhecimento sobre sua realidade. De acordo com Priscila Faulhaber, é um equívoco categorizar como “primitivos” ou “pré-científicos” sistemas culturais de povos indígenas, tribais ou qualquer outro grupo:

“Eu considero que as diferentes culturas produzem conhecimentos igualmente legítimos, mas existe uma concepção hierárquica da ciência que vem sendo relativizada e reformulada em diferentes campos do saber, principalmente na filosofia e na antropologia. O conhecimento indígena é sistemático pela forma de observação com objetivos práticos. Antropologicamente precisamos desenvolver instrumentos teóricos para mediar essas formas de saber e validar essas lógicas. Não é um pensamento “pré-científico” versus um “pensamento científico”, são lógicas diferentes”, contou a pesquisadora.

A iconografia das rodas celestes destaca a visão Ticuna sobre as estrelas Worecü. Essas são relacionadas com o ritual de puberdade feminina. Imagem extraída do artigo “Leitura Interpretativa sobre Relações Céu-Terra entre os Índios Tikuna” de Priscila Faulhaber.

A astronomia cultural, ou a etnoastronomia, pode ser entendida como o conhecimento concebido e difundido por pesquisadores, a partir da academia, sobre os saberes de populações nativas no que se refere a relações céu-terra que lhes são específicas. Segundo a pesquisadora vale ressaltar as contribuições de Claude d’Abbeville, Theodor Koch-Grünberg e Curt Nimuendajú para essa área.

O crescente interesse internacional pela importância da contribuição do conhecimento tradicional indígena, levou a United Nations Education, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) a promover incentivos que começaram com a “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural”, em 2001, e um dos resultados foi a produção de pesquisas com a temática “Conhecimento Local, Metas Globais”.

De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), no Brasil existem 896,9 mil indígenas. Desses, a população residente em terras indígenas representa 63,8% e em cidades 36,2%. O Censo também investigou pela primeira vez o número de etnias indígenas, mapeando 305, sendo a mais popular a Ticuna, presente em 6,8% da população indígena. Foram ainda identificadas 274 línguas, sendo a Ticuna a mais falada (34,1 mil pessoas).

Essa diversidade possibilita a existência de céus particulares. Encontramos diferentes formas de ver o céu nas etnias indígenas brasileiras, mas existe uma tendência nos índios de uma mesma família ou tronco linguístico a terem uma interpretação do céu parecida, quando não a mesma.

ÍNDIOS TICUNA

Os índios da etnia Ticuna interpretam as constelações a partir de desenhos relacionados a sua cosmovisão, por exemplo: a briga da Onça e do Tamanduá.  Durante o período em que essa briga pode ser observada, são demarcados dois momentos distintos. O primeiro indica o início da estiagem, a Onça encontra-se por cima do Tamanduá. No segundo, que coincide com o fim da estiagem, o Tamanduá fica por cima da Onça.

Imagem: Detalhe da constelação briga da Onça com Tamanduá

Para os Ticuna, essas diferentes posições ou momentos da configuração celeste são de suma importância, pois, se de um ponto de vista ambiental, a última posição observada marca o fim da estiagem; de um ponto de vista simbólico e moral, isso significa que a inteligência pode vencer a força muscular. Para a astronomia cultural, os asterismos não abrigam somente o aspecto pictórico, mas sobretudo a dimensão significativa para o grupo.

ÍNDIOS TUPINAMBÁ

Os índios Tupinambá têm seu próprio calendário solar. Observam o curso do Sol entre os dois trópicos e com isso sabem quando o Sol vem do pólo ártico trazendo vento e brisa e quando vem do lado contrário trazendo chuva. Além disso, contam pelo curso do Sol o ano em doze meses, identificando os meses pelo regime das chuvas, pela época dos ventos e também pelo florescimento do caju.

Os Tupinambá relacionam a Lua às marés e identificaram as diferenças do nível do mar na Lua Cheia e na Lua Nova. Essa observação tem um significado importante, pois, na época em que Claude d’Abbeville divulgou essa informação, por volta de 1612, as causas das marés, embora fossem motivos de debates, ainda não tinham sido determinadas.

Conheça um pouco mais sobre a astronomia indígena na exposição virtual “Céu Ticuna” clicando aqui

Carta Celeste – abril de 2015 – Constelação briga da Onça com Tamanduá

* Leonne Gabriel é Estagiário de Jornalismo no Museu de Astronomia e Ciências Afins

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