O museu como lugar de novas experiências digitais

Tese premiada da museóloga Karina Muniz Viana conclui que o museu se tornou um lugar de encontro e de novas experiências digitais, sendo ocupado por novos atores sociais e mecanismos de comunicação.

A evolução tecnológica está cada vez mais presente no cotidiano da sociedade, que tem as plataformas digitais como grandes aliadas na produção e divulgação de conteúdo. Mas qual é a relação desse avanço com os museus tradicionais? Segundo a pesquisadora e museóloga Karina Muniz Viana, devido a familiaridade e domínio das mídias sociais, os visitantes recriam a cada postagem uma nova exposição com outras narrativas, se apropriando e ressignificando o museu como jamais se imaginou em toda história da Museologia e do Patrimônio.

Essa análise foi resultado da dissertação “O fenômeno gatekeeper – museologia, compartilhamento e conectividade híbrida na sociedade global”, que deu à Karina o primeiro lugar do Prêmio Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB) de Teses e Dissertações de 2017, no qual concorrem todas as universidades federais com pesquisas ligadas à área da ciência da informação. O fio condutor de sua pesquisa foi o fenômeno gatekeeper ou “guardião do portão”, conceito que surgiu na comunicação no período pós-guerra dos anos 1950, e trata a grosso modo da escolha das informações transmitidas à massa. O termo é usado como referência aos diferentes filtros que o museu realiza antes de expor as coleções aos visitantes. Karina analisou postagens com tema museu no Instagram e no Tumblr ao longo de dois anos, concluindo que o museu não é mais um local parado no tempo. “Minha tese ajuda principalmente a quebrar o clichê de que museu é lugar de coisa velha, ou pior, de que museu moderno tem que ter muita tecnologia e interatividade reduzindo-o grotescamente a um espaço de entretenimento, ou um shopping center cultural da sociedade de consumo”, afirmou Karina.

Ela explicou ainda que, devido ao uso das tecnologias digitais somada à liberdade e criatividade de seus usuários, o museu se tornou um lugar de encontro e de novas experiências digitais, sendo ocupado por novos atores sociais e mecanismos de comunicação. “Esse museu tradicional está se reconfigurando dentro de um corpo social dinâmico, capaz de dialogar com muitas vozes.” observou. Karina reforça que os visitantes produzem novas interpretações, ajudando a recriar outras perspectivas visuais e interação com outras formas de subjetividades. “Os indivíduos globalizados não visitam mais museus, mas sim compartilham a experiência vivida nestes espaços. Não são mais visitantes, são agentes comunicacionais”, constatou ela.

E como nossos museus estão reagindo à essa nova configuração? O diagnóstico da pesquisa aponta que muitos museus brasileiros, ainda atuam dentro de um modelo tradicional, onde a relação visitante x museu se dá apenas pela presença do objeto agregado a longos textos. As instituições estão presas à manifestação física na sala de exposição e ignoram ou simplesmente não entendem que a presença do indivíduo nesse ambiente somada às tecnologias digitais são novas possibilidades de informar, interagir e ampliar a presença do museu. Por outro lado, a autora da tese afirma que temos no Brasil casos de sucesso que atingiram camadas mais profundas nas relações entre exposição x corpo e social x museu.

“Não defendendo um modelo ideal de museu, isso não existe. O que levanto é uma discussão crítica que ultrapasse os limites de interesses, áreas e de competências. Na sociedade global digital que atravessamos, somos um e todos, ao mesmo tempo. E o museu precisa fazer parte desse encontro. E as tecnologias digitais, manipuladas por esses indivíduos, são ferramentas que viabilizam esse diálogo” completou.

Este foi o primeiro ano em que uma pesquisa fora do campo da ciência da informação, no caso a Museologia, foi premiada. Karina é mestre em museologia e patrimônio e atua na área desde 2004. Seu trabalho foi defendido dentro do Programa de Pós- Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST),  sob orientação de Tereza Cristina Molleta Scheiner, museóloga e doutora em comunicação. “O prêmio representa mais uma prova da qualidade das teses e dissertações defendidas em nosso Programa. A ANCIB é uma instituição consagrada no âmbito das Ciências Sociais. Esse trabalho é uma feliz e muito bem alinhavada articulação entre a Ciência da Informação e a Museologia, tanto do ponto de vista teórico como operacional. A autora utilizou muito bem seus conhecimentos nos dois campos para realizar uma análise verdadeiramente transdisciplinar”, disse a orientadora ressaltando a importância da premiação.

Sobre Karina Muniz Viana:

Museóloga, Bacharel em Gravura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, especialista em Gestão da Informação e Inovações Tecnológicas pelo Instituto Brasileiro de Pós-graduação e Extensão e mestre em Museologia e Patrimônio pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua em museus desde 2004 desenvolvendo atividades referentes à gestão de acervo museológico, planejamento estratégico e Tecnologia da Informação. Foi responsável técnica pela criação do Centro de Memória do Instituto EMATER Paraná (2006). Implantou o banco de dados SIMBA no acervo do Museu Oscar Niemeyer (2008). Coordenou o projeto de criação do Centro de Memória da RPCTV, filiada da Rede Globo no Paraná (2010). De 2011 a 2016 integrou a equipe da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná na Coordenação do Sistema Estadual de Museus, sendo responsável técnica do projeto de criação e implantação da Rede de Informações MUSEUS PARANÁ. É professora convidada do Programa de Pós-graduação e Extensão da Universidade Paranaense – UNIPAR (Cascavel). Sua atuação como pesquisadora no campo da Museologia investiga as tecnologias de comunicação e da informação no ciberespaço e suas relações digitais/virtuais com o indivíduo globalizado.

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